segunda-feira, 6 de junho de 2016

À Folha, Silvio Costa diz que a insatisfação dos partidos farão com que Dilma retorne ao fim do processo


O que o leva a acreditar que Dilma irá votar depois de receber o volume de votos contra na Câmara e no Senado? O sr. acha que ela tem condição mínima de voltar a presidir o país?

Não tenho dúvida de que todos os movimentos iniciais do governo provisório de Michel Temer têm ajudado a grande parte dos senadores a fazer reflexão. Muitos senadores com quem a gente tem conversado estão firmando a convicção de que a presidente não cometeu crime de responsabilidade. Uma outra questão que ficou muito clara é que essas gravações [do ex-presidente da Transpetro Sergio Machado com caciques do PMDB] são a comprovação de que uma parcela dos parlamentares queria tirar a presidente Dilma para tentar estancar a Lava Jato.

Mesmo que ela volte, você acha que ela tem condições de percorrer mais de dois de governo com essa fragilidade congressual?

Eu não tenho a menor dúvida de que a presidente vai voltar e vai fazer um novo governo, um governo de pacificação nacional. Porque os movimentos do governo Michel Temer provocaram efeitos colaterais na Câmara. Em todos os partidos há insatisfeitos. Eles podem até não admitir, mas e vi a bancada do PMDB de Minas junto com Newton Cardoso pai comemorando no restaurante Dom Francisco a nomeação do filho [o deputado Newton Cardoso Jr.] para o Ministério da Defesa. Duas horas depois eles foram colocados em segundo plano. Eu sei que o deputado Leonardo Quintão [PMDB-MG] queria ser líder da bancada na Câmara. Colocaram Baleia Rossi (SP). Eu sei que o deputado Saraiva Felipe [PMDB-MG] queria voltar para o Ministério da Saúde. Colocaram o PP.

Mesmo assim, insisto, em eventual volta Dilma não parte de um patamar muito pequeno, de 137 votos [dados na Câmara contra o impeachment]?

Nós vamos voltar para o governo e vamos repensar essa cultura de líderes [das bancadas, tradicionais interlocutores do Palácio do Planalto]. Esse Congresso que tá aí que aprovou essa pauta-bomba [reajuste do funcionalismo, com impacto de mais de R$ 50 bilhões até 2019], tá muito claro que não tem compromisso com o país. E o pior, esse Michel Temer está provando que não tem compromisso. Porque ao mesmo tempo que diz que quer o ajuste fiscal, ele autoriza a pauta-bomba, isso é uma irresponsabilidade.

Mas esses projetos foram negociados pelo governo Dilma e têm o apoio do PT.

A maior prova de que não foram negociados é que eles foram enviados, mas nós não votamos, ficando dialogando o tempo todo. Evidentemente que uma parte do PT, tenho que ser bem claro, em algum momento complicou a governabilidade da presidente, eu não posso negar isso. Agora, voltando à questão da governabilidade, quero deixar bem claro que tenho consciência também que o nosso governo, sem fulanizar, cometeu muitos erros na articulação política. Mas acontece é que a dor que ensina a parir. Ela vai voltar e nós vamos fazer um novo tipo de repactuação com a Câmara. O primeiro governo valorizou muito a cultura dos líderes que não lideravam. Exemplo, [Leonardo] Picciani [PMDB-RJ] nunca liderou o PMDB. Com 60 deputados, o PMDB nunca entregou mais do que 25 votos à presidente Dilma. Então temos que resolver as questões por Estado. Até conversa com líder, mas não pode bater o martelo com ele. Tem que bater o martelo por Estado, por bancada.

O que ela tem dito para você, ele acredita mesmo que vá voltar?

Ela tem certeza que vai voltar. Ela tem conversado com senadores, toda semana ela conversa. Esse governo provisório abriu um shopping center, colocou um bocado de vendedor, prometeu muita coisa, tanto no Senado quanto na Câmara e não tá honrando o compromisso.

Mas ele tem tempo para tentar honrar.

Mas chegou a conta. Eles não tão evidentemente pagando a conta que criaram.

Mesmo que ela volte, não seria apenas para promover novas eleições, na linha "nem Dilma nem Temer"?

Eu fico indignado como um parlamentar de uma das maiores democracias do mundo vem propor um tipo de proposta dessa, bizarra. Isso é, do ponto de vista jurídico, natimorto. Você não pode fazer uma PEC [proposta de emenda à Constituição] para encurtar o mandato de ninguém. Só tinha uma possibilidade de fazer nova eleição, se o TSE cassar a chapa [Dilma-Temer], e não vai cassar porque a presidente não cometeu crime eleitoral, ou se a presidente e o Temer renunciarem, coisa que jamais a presidente vai fazer. É impossível a presidente dialogar nesse sentido, zero.

Mas tem muitos aliados dela que admitem essa saída?

Tem aliados e pseudoaliados. Eu sou aliado. Por conta de pseudoaliados chegamos a essa situação. Quem é aliado e conhece a presidente não vem com esse tipo de papo.

Como vocês conseguiriam governar com a oposição do "centrão", que hoje tem um poder muito grande na Câmara e é influenciado por Eduardo cunha?

Primeiro, o Eduardo Cunha está com os dias contado, inclusive com os dias de liberdade contados. Porque se essa Casa tiver vergonha na cara vai cassar Eduardo Cunha, esse é o primeiro ponto. Segundo, esse "centrão" é muito volúvel. Esse centrão é da tese de quem muda é o governo, nós não mudamos. Eles querem cargos. Então, se mudar o governo o "centrão" vem também. Tu achas que PTB, PSD, PP, esses partidos, têm vocação de oposição? Zero. A intimidade que eles têm com a oposição é mesma que eu tenho com a Claudia Raia, nenhuma, zero.
À Folha, Silvio Costa diz que a insatisfação dos partidos farão com que Dilma retorne ao fim do processo
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Oleh