terça-feira, 14 de junho de 2016

A lisura do golpe, por Francisco Costa


Imagine que você fosse flagrado sacando dinheiro no banco no momento em que ele foi assaltado, e acusado(a) de ser assaltante também.

Você iria para julgamento e seus advogados se valeriam de todos os meios previstos na Constituição e no Código de Processo Penal, para provar a sua inocência, que apenas houve uma infeliz coincidência entre o momento em que você foi sacar e em que o banco foi assaltado.

Os seus advogados elaborariam a estratégia de defesa, indicando o gerente do banco para testemunha, para dizer que você é cliente antigo, com ficha limpa, sem cheques sem fundos e com os pagamentos das operações de crédito devidamente pagas, e sob a alegação que o gerente não tem nada a ver com o assalto, o juiz indefere, não aceita.

Indicam o seu patrão, ou o seu contador, para testemunharem que você recebe o suficiente para ter o saldo que tem, na conta, e sob o argumento de que o seu patrão, ou o seu contador, não estavam no banco no momento do assalto, o juiz indefere, não aceita.

Apresentam a caixa do banco, para que ela diga que o(a) vê sempre no banco, sem que por isso o banco seja sempre assaltado, mas a caixa não é aceita como testemunha porque se formou uma relação de amizade entre vocês, segundo o juiz.

Como saída já quase desesperadora, os seus advogados pedem perícia do seu extrato bancário, da sua conta corrente, para provar que é cliente do banco e tinha saldo em conta, capaz de cobrir o saque, mas sob a alegação que os assaltantes também poderiam ser clientes do banco, a perícia é negada pelo juiz.

Indicam então duas pessoas que estavam no banco, junto com você, no momento do assalto, para que digam que em nenhum momento houve um gesto suspeito seu, que estava desarmado(a) e que também se deitou no chão, como os demais presentes, e o juiz aceita.

Na verdade testemunhos frágeis, já que a promotoria pode alegar que você era o olheiro, o agente passivo, elo de ligação entre a quadrilha e o banco... Até que você descobre que o juiz e o júri têm ligações com a quadrilha e que você cairá de bucha, sendo preso(a) inocentemente.

Substitua a palavra juiz por Antonio Anastasia, o relator do processo de impeachment da Sra. Presidente da República, e a palavra júri, pela Comissão de impeachment.

Bresser Pereira, economista com larga experiência, já tendo sido ministro e presidente do IBGE, professor universitário, tucano, um dos fundadores do PSDB, anti petista notório, foi recusado porque a sua opinião é de que houve um golpe.

Ciro Gomes, advogado, deputado por mais de um mandato, ex governador de estado, ex ministro, palestrante de economia e finanças públicas, não é petista e tem sérias discordâncias da política econômica do governo Dilma, mas foi recusado porque a sua opinião é de que houve um golpe.

Cito esses dois porque com nomes de conhecimento público, mas recusaram vários outros nomes, entre professores de Direito Constitucional, economistas especializados em Contabilidade Pública, técnicos do TCU... Porque todos com opinião formada: houve um golpe.

Por fim, absurdo dos absurdos, Anastasia não aceitou a cópia, periciada, da gravação do telefonema entre Machado e Jucá, quando todo o mecanismo do golpe foi descrito, inclusive com a citação explícita da sua motivação: parar a Lava Jato, já que os golpistas estão todos citados lá.

Note-se que a mídia e a opinião pública só tiveram acesso a 10% da gravação, todo o resto está em segredo de justiça, e podemos imaginar o que está lá, tão contundente que escondido.

Assim julgarão Dilma, nesse processo com vícios de origem, com trâmite orientado, com um relator citado na Lava Jato e 35 dos 38 membros da Comissão (juri) respondendo ou já tendo respondido a processos por corrupção.
O circo está armado, façam as suas apostas.

Francisco Costa
Rio, 14/06/2016.
A lisura do golpe, por Francisco Costa
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