sexta-feira, 8 de julho de 2016

A vegonha de ser paulista. Sobre o deprimente 9 de julho, por Thiago Mendonça


Um dos mitos fundadores da São Paulo moderna é a fracassada e conservadora contra-revolução de 32. Todo o ano temos em 9 de julho um deprimente desfile comemorando nosso fracasso. Participam do desfile “cívico-militar” veteranos caquéticos, familiares dos antigos combatentes, policiais militares, escoteiros, maçons, skinheads, diversos grupos nacionalistas de extrema direita, integralistas, malucos e inocentes desavisados. Sendo eu paulistano, a data de 9 de julho sempre me trás uma imensa vergonha.

O que poucas pessoas sabem é que um dos motivos centrais que levaram à insurreição fracassada foi o conflito da reacionária elite paulistana com um grupo de esquerda egresso do tenentismo, que ascendera ao poder junto à Getúlio Vargas. Uma carta publicada pelo interventor tenentista Manoel Rabelo, publicada no diário oficial do Estado de São Paulo pouco tempo antes da revolta de 32, aclara os reais motivos do conflito. Trata-se de um documento de mais de 80 anos, que permanece combativo na forma e conteúdo, e que nos leva a refletir se ainda existe algum vestígio de pensamento revolucionário hoje na política brasileira:

“Considerando que se não deve desconhecer o alcance social e moral da mendicidade, que é dignamente exercida; considerando que qualquer cidadão pode estender a mão a piedade, implorando a generosidade dos irmãos; considerando que quem pede, em público, geralmente demonstra superioridade de sentimentos, por ter de comprimir o orgulho e a vaidade; considerando que a esmola beneficia tanto o coração de quem a pede como o de quem dá; considerando que a recusa ao trabalho não é um vício peculiar às classes pobres; considerando que a contemplação da sociedade demonstra que o maior número de vadios é formado pela burguesia; considerando que os mendigos, vivendo da bondade alheia, são moral e socialmente úteis, enquanto são nocivos os ricos ociosos, que vivem em pleno desregramento moral, sem nada produzirem; considerando que é covardia e falta de generosidade tratar os mendigos como se entre eles, mesmo excepcionalmente, se encontrassem os maiores hipócritas e os maiores exploradores; considerando que se há falsos mendigos o número deles é sempre diminuto e que nem assim deixam de produzir em outrem reações altruístas; considerando que não basta a robustez de que alguns mendigos parecem dotados para assegurar-se de que seu aparelho mental seja são, considerando-se assim que o pretender-se julgar pela aparência se o indivíduo precisa ou não mendigar pode induzir a grave erro; considerando que ocultar os mendigos aos olhos dos forasteiros é querer iludir a estes quanto à anarquia social em que todos os ocidentais vivemos, considerando que o mendigo desperta a atenção, mesmo dos corações mais duros, para os problemas em prol da felicidade humana; considerando que nada nos pode comover mais do que o sofrimento alheio; considerando que é um dever fundamental o respeito à mulher em qualquer situação em que se encontre; considerando que, embora em princípio – a esmola – deve ser dada, ninguém é a isso obrigado; considerando que a dignidade da mendicância escapa – como a de qualquer outra função proletária – à competência judiciária dos órgãos do governo e está unicamente sujeita ao juízo da opinião pública; considerando portanto, que vedar o livre exercício público à mendicidade é um monstruoso crime de lesa-humanidade; determino que ninguém, sob o simples pretexto de exercer a mendicidade, sofra qualquer constrangimento em sua liberdade; que, quando por motivo insofismável de ordem, algum mendigo deva ser afastado do ponto onde se ache, a autoridade competente o faça com todo o cavalheirismo, ainda mais em se tratando de uma senhora e, finalmente, que só se procure dar asilo aos mendigos que livremente o solicitarem. Peço, pois, que vos digneis tomar as providências que são necessárias para o fiel cumprimento da presente comunicação. Saúde e Fraternidade. (a) Coronel Manoel Rabelo. Interventor Federal. ”

(o texto do Coronel Manoel Rabelo foi retirado do livro Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres – de Joel Rufino dos Santos”).

Thiago B. Mendonça
A vegonha de ser paulista. Sobre o deprimente 9 de julho, por Thiago Mendonça
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Oleh