quinta-feira, 7 de julho de 2016

Boechat sobre legalização da maconnha: Hitler e Cunha não utilizavam drogas


Growroom:
 Ricardo Boechat está com 63 anos e já no auge da carreira. Jornalista com mais de 40 anos de experiência, já trabalhou nos principais jornais do Brasil, já foi diretor de jornalismo da Band e hoje é âncora do Jornal da Band e da rádio BandNews FM. Conhecido por falar abertamente suas opiniões e por ter um jeito um tanto desbocado. Talvez por isso, Boechat foi eleito o jornalista mais admirado na pesquisa do site Jornalistas&Cia em 2014, que elencou os 100 principais profissionais do mercado.

Nas redes sociais, O jornalista fala de assuntos considerados tabus sem medo de ser julgado, suas opiniões contundentes são compartilhadas por milhares de pessoas. Apesar de Boechat possuir alguns desafetos como o pastor Silas Malafaia, sua popularidade parece crescer cada vez mais, principalmente entre os jovens.

O Growroom conversou com ele e falamos sobre a descriminalização das drogas, o direito do cidadão plantar sua própria erva, da prisão do ativista THCProcê e de como foi a primeira vez que ele fumou maconha.

Growroom: Boechat, você é um dos poucos jornalistas que expõe suas opiniões publicamente, e pelo menos entre os jovens, você tem sido mais respeitado que a maioria dos jornalistas do Brasil. Você acha que isso se deve às suas opiniões menos conservadoras?

Boechat: Não sei se todas as opiniões que eu expresso são mais conservadoras ou menos conservadoras, confesso que eu não me coloco diante das coisas pretendendo ser ou não ser conservador. Algumas coisas são opiniões que eu tenho há muito tempo, não sei se elas estão enquadradas como progressistas, que seria o antônimo. Acho que como são opiniões que eu sempre tive e alguns assuntos são tratados de forma muito dogmática, o que não é o caso das minhas abordagens, aí fica parecendo que por eu não estar alinhado a uma abordagem clássica do assunto, à favor ou contra, me colocam numa posição que pode ser vista como progressista. Não me vejo deste jeito. Acho que são pontos de vistas pessoais que eu defendo por entender que tem a ver com minhas convicções, com meus valores. Eu falo verdades, as minhas verdades, não tenho receio de me expor.

Growroom: Você acha que o brasileiro de hoje enxerga a maconha de um jeito diferente do brasileiro de antigamente?

Boechat: Ah cara, eu acho que não dá pra afirmar isso não. Eu acho que não! Trata de forma menos mística, todos falam mais abertamente, mas tá longe de ser uma sociedade mais tolerante com relação ao assunto. Tanto que não há nenhuma possibilidades visível de haver mudanças, que eu entendo como significativa, no trato dessa questão.

Growroom: O Brasil é um dos poucos países que não descriminalizou as drogas. O processo está parado no STF, nas mãos do Ministro Teori Zavascki. O que você pensa sobre esse assunto?

Boechat: Quando se fala em descriminalização, os movimentos favoráveis a essa linha só vão até a maconha. As marchas são pela liberação da maconha. To certo ou to errado?

Growroom: Sim, no geral sim.

Boechat: Pois é, eu quero cocaína, eu quero anfetamina, eu quero crack, eu quero heroína, eu quero loló, eu quero o que eu quiser, eu sou o dono do meu nariz! Eu não admito que o Estado, a sociedade digam o que eu posso fazer comigo mesmo. Ah não, mas você vai me causar um prejuízo. Que prejuízo que eu vou te causar? Ah você vai ficar doidão. Tem cara que fica doidão e pinta bem pra caralho, outros compõem músicas antológicas. Tem mais, Hitler não se drogava, o Eduardo Cunha não deve consumir droga. E atenção, eu não sou usuário de drogas. Quer dizer, tem horas que eu me pergunto o que me aconteceria hoje se eu fizesse como há algumas décadas, se eu fumasse um bom baseado, nem sei se existem mais ‘bons baseados’.

Growroom: Como foi a primeira vez que você fumou?

Boechat: Não deu nada, não aconteceu nada, e eu já era adulto, não era jovenzinho não. Meus primeiros baseados eu comprei com o dinheiro do meu trabalho, já era casado. Depois, na segunda ou na terceira vez, com espaços grandes entre elas, eu danei a rir, eu ri pra caralho, ri feito bobo, que foi o efeito que se repetiu e foi a única coisa que me encantou na maconha, que foi me transformar em bobo. Eu que era todo compenetrado, militante, trabalhador, careta de bronca como se dizia no meu tempo, comecei a rir de qualquer bobagem que eu ouvia; qual o problema? Me deu muita alegria, rir não faz mal. Depois esse efeito meio que começou a ceder espaço pra outros, ai começou a me dar paranoia, ai eu me irritei e parei. Mas veja, eu acredito no direito de todos de experimentarem a mesma reação, que porra é essa de dizer que não? E quem tá me dizendo que não? É aquele cara que nas sombras corrompe ou é corrompido? É aquele cara que nas sombras toma dinheiro de fiel prometendo a cura de doença que não tem cura? É o conservador tarado que bulina a filha? Então porra, vai tomar no cu.

Growroom: Você acha que existe uma certa hipocrisia?

Boechat: Eu entendo que a questão pra mim não é a droga, é o direito do estado e da sociedade de se meterem na soberania do cidadão sobre si mesmo. Não, mas você vai fumar crack e vai ficar doidão. É, de fato vou, se não fosse pra ficar doidão, tomava um copo d’agua. E você doidão? Se doidão eu incomodar você, uma lei tem que me enquadrar, porque incomodar careta ou doidão é a mesma coisa, é a mesma transgressão, e se você quiser estabeleça um agravante. Ser pego dirigindo sob efeito de crack é igual ser pego dirigindo sob efeito de álcool. Atropelou alguém, é uma coisa. Atropelou alguém, alcoolizado, é outra coisa, é agravante.

Growroom: Há algumas semanas, o ativista THCProcê foi preso por plantar maconha e distribuir sementes. O que você achou dessa prisão?

Boechat: Eu gostei muito da argumentação dele. Não há na história da humanidade nenhuma ação bem-sucedida baseada na repressão contra um consumo que tenha demanda. Não existe. A experiência mais completa nesse sentido, com início, meio e fim, se deu com a Lei Seca nos Estados Unidos; que produziu uma carnificina, um aumento exponencial da corrupção do aparato policial, político. E esse cara diz o seguinte: eu to colaborando com vocês, no sentido de evitar que o tráfico prospere, eu to dando pro cara, a semente pra ele ter o produto na sua própria casa. O tráfico acaba, não acaba? Se todo mundo produzir sua própria maconha, não existe tráfico.
Do ponto de vista da lógica, da atitude, ela é quase santa! Ele tinha que ser canonizado, não ser preso, é um puta benemérito. Devia estar no Lions Club de Brasília. A prisão é absurda, idiota e além do que, inócua. Como se em Brasília a polícia não tivesse porra nenhuma a mais pra fazer.

Growroom: E qual sua opinião em relação à polícia no geral?

Boechat: Eu não sou um especialista no tema. Mas eu acho que as policias militares como instituição, são um fracasso. É um fracasso que nos é útil em determinadas circunstâncias? Sim, é! Mas elas são um fracasso. Seria preciso começar do zero, reestruturar, submeter a comando único, tirar essa coisa da hierarquia militar, acho que isso empresta uma série de componentes impróprios pra corporações de segurança que lidam com populações civis, desde condutas, valores, treinamento, cultura, até armamento se chegarmos nesse extremo. Ai não precisa ser um especialista pra ver que a coisa não vai bem, acho que nenhum chefe militar vai dizer que a coisa tá boa, porque não tá. As corporações estão muito fragilizadas na questão moral, comportamental, estão muito contaminadas, muito infiltradas. A criminalização da droga, o bilionário mercado da droga é grande o combustível dessa degradação. E aí há problemas de condições de trabalho, salário, treinamento. É uma polícia que mete o dedo no gatilho sem cerimônia, o Brasil talvez seja o único país do mundo que não tendo uma guerra declarada, revogou a utilidade do refém. O bandido não faz refém no Brasil porque sabe que a polícia dá tiro nos dois. Aqui os caras metem bala num carro que passou em uma blitz, sem saber quem está dentro do carro; no máximo ali tem um bandido em fuga, no mínimo tem um garotão com a carteira vencida e que ficou com medo, ou talvez um bandido levando uma vítima de sequestro relâmpago, que morrerá eventualmente, sem que o bandido seja atingido. Eu imagino que num determinado momento, sei lá quando, porque é quase uma Utopia, a população brasileira vai ter que decidir o que fazer das suas polícias militares.

Growroom: Há algumas semanas você compartilhou a campanha ‘Mais Conha Menos Cunha’. O que você achou dessa campanha e desse atual governo que está ai?

Boechat: Essa é um pouco a parte jocosa da coisa. Não acho necessariamente que precisa ter mais maconha pra ter menos Cunha, eu não prego que as pessoas saiam consumindo maconha ou drogas, eu mesmo não o faço. Confesso que ficaria curioso pra saber o que me aconteceria hoje, mas não faço. A campanha é uma tirada bem sacada que merece ser colocada, porque provoca duas discussões ao mesmo tempo, porque a maconha é objeto de censura e o Cunha ta aí. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, a gente pode liberar a maconha sem ter nenhuma garantia de que a classe política passará a ser diferente do que é.

Growroom: Mas você acha que com esse governo que aí está, a gente teria alguma chance de descriminalizar ou legalizar a maconha?

Boechat: É, não creio não. Nem com esse, como também não vi no governo do PT. Tiveram 12 anos de poder e porra, não avançaram merda nenhuma nesse sentido. Não avançaram na comissão da verdade, na punição de torturador. O que eu acho é que eles são todos muito iguais. Quando você me diz “esse governo que está aí”, eu digo, qual deles? Pra mim não houve mudança nenhuma.

Growroom: E um governo como o do Pepe Mujica? Você acha que seria aceito no Brasil?

Boechat: Eu gosto da ideia de que o papel principal de um líder é dar exemplo, por isso eu gosto muito do Pepe Mujica. Ele tá longe de ser uma unanimidade no Uruguai, governou com dificuldades em alguns momentos, não fez coisas que prometeu, enfim, ele tem lá seus defeitos. Ele se sobressai por uma conduta pessoal que é muito única, e por algumas atitudes como governante. O que eu mais exalto na figura do Mujica, é o seu discurso questionando a necessidade do aparato público cercar-se de tantas regalias, estruturas, séquitos, mordomias e etc. Gosto muito de quem faz esse discurso e gosto mais de quem pratica. E eu entrevistei ele num casebre onde ele morava. Pros padrões brasileiros, seria um casebre, o teto de amianto, muito humilde, pobre. Um cara que dirige o próprio carro. Ah mas isso não é propaganda, marketing? Eu sei lá se é, mas tendo um presidente da república que se comporta assim, vai pegar um jatinho da FAB pra ir pra casa no fim de semana. Eu gosto muito do chefe de estado que dá exemplo, de direita, de esquerda, centro, o que for. Não precisa ser que nem o Pepe Mujica, na Suécia os parlamentares compartilham apartamentos com beliches, usam uma lavanderia comum, ele próprios lavam suas roupas, andam de transporte público, o prefeito de Nova York vai de metrô, o primeiro ministro da Noruega tem um carro de escolta. Entendeu? Você vê o Renan Calheiros se deslocando em Brasília, você tem a sensação de que Deus voltou! Jesus voltou e tá num carro preto. Então num país miserável, cheio de criança entregue. Pra mim o grande inimigo da sociedade é o Estado brasileiro.

Growroom: Agora o Uruguai vai começar a vender de fato a maconha em farmácias. Aqui no Brasil, a Anvisa autorizou a prescrição de remédios à base de CBD e THC, mas o acesso a esses medicamentos ainda é muito difícil e restrito. Você acha que plantar maconha como uma alternativa para autossustento seria legítimo?

Boechat: É mais do que legítimo. Se eu tivesse a necessidade de recorrer a canabidiol, qualquer derivado ou a própria maconha natural, por uma questão de saúde minha ou de um ente querido meu, eu quero que se foda a legalidade, enfia a legalidade no cu! Eu vou lá e compro e foda-se, trago do exterior se tiver que trazer. Porque não acho razoável. Quem é a Anvisa? É uma agência reguladora como todas as outras num antro de putaria. Vou deixar minha saúde nas mãos dessas figuras? Entendeu? O Estado é o nosso maior inimigo. O Estado brasileiro, da forma que ele se desenvolveu, com os tentáculos que ele criou e as estabilidades, ele é um grande inimigo. Às crises políticas, vai se sobrevivendo, mas ao Estado, esse tá matando o país, matando!
Boechat sobre legalização da maconnha: Hitler e Cunha não utilizavam drogas
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Oleh